domingo, 15 de maio de 2022

FILATELIA NARRANDO A HISTÓRIA – Exposição Filatélica “8 de maio, Dia da Vitória”

Na última quinta-feira (12), estivemos presentes a uma interessante exposição de peças filatélicas promovida dentro do Hospital Geral Militar de Fortaleza (HGEF), pelo filatelista e entusiasta da história militar, o Sr. Major Carlos Macedo que, gentilmente, nos recebeu para uma visita guiada no hall daquela nobre instituição.

Além de sair de lá conhecendo uma parte pouco divulgada da nossa história, também aproveitamos para trazer para os nossos leitores algumas curiosidades sobre a exposição. Seguem alguns trechos da agradável entrevista/bate-papo com o Major Carlos Macedo acerca da Exposição Filatélica “8 de maio, Dia da Vitória” ocorrida entre os dias 9 a 13 de maio últimos.

Fonte: acervo pessoal do expositor.

VPMajor, gostaria de conhecer mais a respeito dessa exposição. Peço que o Sr. se apresente, nos conte como surgiu a ideia da exposição sobre o Dia da Vitória e quando foi a primeira edição.

CMEu sou o Major Macedo, sou oficial dentista do Exército. Atualmente, estou na função de Chefe da Comunicação Social aqui do Hospital Geral de Fortaleza (Hospital Militar).

Eu comecei a colecionar ainda quando criança, quando morava no Rio de Janeiro, parei quando me mudei [com a família] aqui para Fortaleza em 1983. Aqui não tinha tanta facilidade para aquisição de selos como tinha no Rio de Janeiro que, na época, no Rio de Janeiro nas bancas de revista a gente achava as séries para a gente comprar. Eu comecei quando criança, estimulado justamente pelas propagandas que tinham dos Correios, que estimulavam (na televisão, nas propagandas) a gente a colecionar selo.

E essa exposição, a primeira vez que eu participei dela, foi no ano de 2007 em Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Seria no então Hospital de Guarnição de Santa Maria. Um amigo meu, Cel. Rosalvo, era filatelista mais experiente do que eu. Bem, em Santa Maria encontrei esse meu amigo e ele propôs a gente fazer uma exposição. Ele já possuía todos os selos brasileiros referentes à Força Expedicionária do Brasil na Segunda Guerra Mundial e pediu o meu apoio porque eu trabalhava muito bem essa parte de montar banners, essa parte de computação. Ele queria que eu o ajudasse nisso daí. E eu, como antigo filatelista, voltei a me empolgar com isso e encontrei na internet uma facilidade agora para voltar à aquisição de selos.

Fonte: acervo pessoal do expositor

Em 2008, eu fui transferido [a trabalho] aqui para Fortaleza e alguns anos depois eu tive a ideia de refazer essa exposição que o meu amigo havia feito em Santa Maria. Eu já tinha adquirido todos os selos brasileiros referentes à Segunda Guerra Mundial, tal e qual ele fez. Continuei estudando bastante sobre o assunto e, interessado nesse fato, “Participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial” e na Segunda Guerra Mundial em si, eu comecei a adquirir selos estrangeiros com essa temática também, referentes ao Dia D, que é o Dia do Desembarque na Normandia; ao V-E Day, que é o Dia da Vitória na Europa; e, com a temática dos generais comandantes da Segunda Guerra Mundial, General Patton, Montgomery, o próprio Marechal Mascarenhas, o Mark Clark (que foi comandante do V Exército [Americano], ao qual o Brasil também foi incorporado). E a coleção foi crescendo ano a ano e, hoje, a nossa exposição está aqui razoavelmente diversificada, e a gente gosta sempre de passar essas informações, estimular a coleção de selos porque colecionar selos é preservar a História. Eu gosto muito de estimular, muitos [visitantes] que vêm aqui não sabiam que é tão interessante colecionar selos, desperta isso nas pessoas. 

Fonte: acervo pessoal do expositor.

E outra coisa que eu gosto de fazer também é divulgar a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, porque é muito pouco divulgado nos livros de História, são assuntos que passam batido, e têm fatos realmente bastante interessantes, né? Teve a sua relevância no teatro de operações da Itália onde nós estivemos. Houve, por exemplo, batalhas onde o Brasil saiu com outras forças aliadas no combate, como americanos e sul-africanos, que foi a Batalha do Montese, por exemplo. Eles não conseguiram seguir em frente, tiveram que retrair e quem chegou até o final da batalha e conseguiu expulsar os alemães da cidade foi a nossa divisão do Exército Brasileiro. E assim, cercamos a divisão alemã em fuga, na cidade de Fornovo [Itália], capturamos a divisão inteira. Foi a única vez em toda a Segunda Guerra Mundial que uma divisão inimiga inteira foi capturada. Foram mais de 14 mil prisioneiros feitos nessa batalha. Então, têm diversos outros pontos curiosos e interessantes sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra que eu aproveito para divulgar junto com essa exposição filatélica.

VP – Eu pude observar aqui na visita, em que o Sr. me apresentou algumas peças, que nós temos banners, envelopes, cartões postais. Eu queria que o Sr. falasse um pouco do acervo que está exposto hoje e também a respeito de alguns materiais audiovisuais que o Sr. está disponibilizando aqui no espaço da exposição, se for possível.

CMPerfeitamente. A primeira parte que eu exponho aqui, que eu acho que é o mais importante, são os nossos selos brasileiros referentes à Segunda Guerra Mundial e a participação do Brasil. Eu separei por temas aqui nos expositores que os Correios tão gentilmente nos cederam. Então, numa face nós temos os selos do Brasil referentes à Segunda Guerra Mundial, inclusive com a folhinha que foi lançada referente ao Dia da Vitória, uma folhinha heptaglota, está em sete idiomas. Aqui eu tenho ela em russo e em português. Noutra face do nosso expositor, eu tenho selos referentes aos grandes comandantes da Segunda Guerra Mundial, como mencionei antes, General Patton, Montgomery, De Gaulle, o Mark Clark, "Ike" Eisenhower, o Mascarenhas de Moraes.

Outra parte, eu tenho alusiva à Segunda Guerra propriamente dita, onde recentemente eu observei a história do V-mail, né? O correio americano, pra levar a correspondência dos soldados americanos para as famílias, eles fotografavam em microfilme, né? Que seria muito mais compacto que as grandes bagagens de correspondência. Levavam para os Estados Unidos, e lá revelavam e entregavam a carta então revelada para os parentes. Outra face são selos relacionados comemorativos ao dia do desembarque da Normandia, ao Dia D. Temos mais uma face aqui com selos estrangeiros também comemorativos do V-E Day, o Dia da Vitória na Europa. E por fim, eu tenho exposto ali uma série de selos, onde eles possuem o Mapa Mundi, narrando ou descrevendo, ano a ano, a trajetória da Guerra no mundo, de 1941 até 1945.

Fonte: acervo pessoal do expositor

Dispomos aqui também de banners, que eles expõem justamente fatos sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra, desde o porquê que nós entramos. Mostrando os 35 navios brasileiros que foram torpedeados, com mais de mil pessoas que morreram nestes torpedeamentos. Contando desde a formação da nossa Força Expedicionária, as principais batalhas, a linha de comando que existia, algumas curiosidades e fatos pitorescos que ocorreram também. Temos um outro banner demonstrando todo o armamento que o Exército adquiriu quando entrou na guerra, que houve a modernização também do Exército Brasileiro. Antes adotávamos a doutrina francesa, passamos a adotar a doutrina divisionária americana e também modernizamos nossos equipamentos, demonstrado nesse banner.

E para enriquecer um pouco mais também, exposto aqui no nosso hall onde tem os expositores dos selos, a gente tem uma TV passando sequencialmente alguns documentários sobre o Brasil na Segunda Guerra Mundial.

VP – Para finalizar, quantas vezes essa exposição já aconteceu aqui em Fortaleza, quantas peças filatélicas o Sr. acredita que possui e, de todo o material que o Sr. reuniu até hoje, qual seria a sua peça favorita?

CM - Olha, essa é a quarta vez que nós estamos expondo aqui em Fortaleza. Quantas peças filatélicas, eu realmente não sei precisar a quantidade, a quantidade é grande! As que eu considero mais importantes e mais bonitas são as que estão expostas aqui. E a peça que eu mais gosto é a que é autografada pelo presidente da Agência Central dos Correios do Brasil, que foi a série da Vitória lançada em 8 de maio de 45, justamente aquela peça com a folhinha heptaglota, em sete idiomas. Essa é a peça que eu acho mais importante.

Encerramos agradecendo a atenção e disponibilidade do nosso entrevistado por nos ceder essa entrevista de última hora e também às imagens cedidas para ilustrar a postagem.

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

Literatura Filatélica - A filatelia temática em destaque

        

        A produção literária na área de filatelia segue dando novos frutos em solo cearense, motivo de grande contentamento. No dia 15 deste mês, aqui em Fortaleza, aconteceu um promissor encontro entre gerações ligadas à Filatelia, organizado pelo caríssimo colega Cristian Molina, autor do Catálogo Brasileiro de Filatelia Temática, obra premiada na categoria Literatura, na BRAPEX 2021. 

        O encontro teve por finalidade principal colher dados para uma nova edição do Catálogo que versará sobre Artistas Postais, com entrevistas, histórias dos bastidores dos Correios, curiosidades e apresentação de artes postais que acabaram não sendo emitidas. O lançamento está previsto para 2022.


                                        Fonte: acervo pessoal


        A reunião contou com as presenças da ilustre amiga Lucia TV Ramos (Artista Postal) e da nossa presidente da Sociedade Numismática e Filatélica, Júlia Geracita de Mello, a convite do autor.

        Aos interessados em conhecer a obra citada, em sua primeira edição composta por 6 volumes, segue um vislumbre da capa.

                                       Fonte: acervo pessoal





sábado, 31 de julho de 2021

Dia do Selo Postal Brasileiro: 178 Anos de história

Neste domingo (01/08), o selo postal brasileiro completa 178 anos de estrada. De lá para cá, foram muitas mudanças, modernização de técnicas e aprimoramentos gráficos que fizeram dos nossos selos objeto de desejo de colecionadores de todo o planeta. Para registrar essa data, resgatamos detalhes da sua história.

Em 1.º de agosto de 1843 foi emitido e começou a circular o primeiro selo postal brasileiro, primeiro das Américas e segundo selo do mundo. Instituída por D. Pedro II, a primeira série de selos do Brasil foi chamada “Olho de Boi”, seguida dos modelos Inclinado (1844), Olho-de-Cabra (1850) e Olho-de-Gato (1854), todos estampando os valores faciais de 30, 60 e 90 réis.


Fonte: blog dos Correios.

Assim como o pioneiro Penny Black, emitido pela Inglaterra em 1840, a adoção do selo postal buscava evitar a evasão de receita na entrega das correspondências: no formato anterior, a tarifa (porte) da carta era cobrada do destinatário, que nem sempre estava disposto ou preparado para pagar. Isso foi abolido com o pagamento antecipado pelo remetente, ainda na origem, atestado pela aposição do selo no envelope.

Selos postais têm um importante papel no registro e divulgação da cultura de um país, servindo como documento histórico ao retratarem fatos relevantes; disseminarem projetos sociais, artísticos e culturais; apresentarem espécimes da sua flora e da sua fauna, bem como seus espaços geográficos; homenagearem personalidades e grandes artistas, dentre outros assuntos do interesse do público. Com a diversificação dos motivos e técnicas aplicados na sua produção, os selos galgaram o status de peças de colecionismo bastante apreciados e disputados por aficionados de todo o mundo, conhecidos como filatelistas.

Durante sua trajetória histórica, os selos brasileiros conquistaram vários prêmios internacionais devido a sua beleza e criatividade, dentre eles o bloco São Gabriel - Padroeiro dos Correios (1973) e o de Melhor Selo Estrangeiro na China, com o Piracema (2006). 


Fonte: blog dos Correios.


Como destaques da filatelia do Brasil temos ainda o primeiro selo em Braile do mundo (1974), o modelo holográfico - segundo selo do mundo com imagens tridimensionais (1989) e selos com aroma, textura e material diferenciados como, por exemplo, o selo em tecido do Centenário do Corinthians, lançado em 2010. Mais recentemente, o bloco 200 Anos da Canção Noite Feliz (2018) alcançou o primeiro lugar no Prêmio Internacional São Gabriel de Arte Filatélica (Itália).

Fonte: blog dos Correios.


São inúmeras as razões que explicam a fascinação que essas minúsculas obras de arte exercem sobre apaixonados de todas as idades ao redor do mundo. Selos são itens de colecionismo muito especiais e símbolo de arte, cultura, conhecimento e fraternidade. O que você está esperando para começar sua coleção?


sexta-feira, 5 de março de 2021

05 de Março - Dia do Filatelista Brasileiro

 





O Dia do Filatelista (05 de março) é celebrado aqui no Brasil desde 1969. A data, escolhida durante um congresso da Comissão Estadual de Filatelia em São Paulo para homenagear os colecionadores de selos e peças postais, faz alusão ao dia em que foi baixado o Decreto que organizava os serviços de Correios no Brasil, pelo então imperador D. Pedro I. Pelo fato de haver impulsionado o funcionamento dos Correios brasileiro, que depois veio a ser tornar o segundo país no mundo a emitir selos postais, é que essa data se reveste de importância para os integrantes deste hobby apaixonante!

Parabéns🎉 Amigos Filatelistas! 👏🏼👏🏼👏🏼

Nesta data, congratulamos a todos aqueles que se dedicam à arte do colecionismo de selos, reunindo emoção e sensibilidade, que contemplam o mundo pelas imagens contidas nas peças postais! 🤩

Esperamos que essas pequeninas obras de arte continuem a ser sua melhor fonte de entretenimento, sigam a inspirá-los a conhecer novas culturas, novos personagens, novas e velhas histórias do Brasil e do Mundo, fazendo novos amigos pelo caminho!

✨São os votos da Diretoria da SNFC aos nossos diletos sócios, extensivos a todos os amigos que a Filatelia nos proporcionou reunir! ✨

domingo, 14 de fevereiro de 2021

A Ondulada Moeda do Império do Vai-Não-Volta: os 10 cents do Ceilão de 1951 e o Fim do Império Britânico

 Paulo Avelino

colecionismo@paulo.avelino.nom.br

 

1O cents Ceylon 1951 - frente

Esta moeda de bronze chama a atenção mesmo entre moedas mais valiosas em qualquer coleção, quando não por sua forma: ela escapa da monótona circularidade e se diverte em ondulações, na frente em volta do homenageado, “King George the Sixth”, em efígie e em palavra e, no verso, ostenta o valor 10 cents, o país Ceilão (Ceylon) e a data 1951, além de inscrições na língua do país.Conta uma história que pode ser lida como uma cebola de significados, a conter várias camadas. Pode ser vista quase como uma interrogação existencial: por que essa moeda existe, já que, facilmente, ela poderia não existir? Por que essa efígie, que cai em interrogação mais detalhada, que poder cunhou essa moeda, para mediar os pagamentos de qual comunidade, principalmente, por que naquele ano, e não cinco anos antes ou quinze depois?

A todas essas perguntas uma moeda pode responder.

Quanto à nossa moedinha ondulada, pode-se dizer que sua história começa três décadas antes, em 1921. Nada aconteceu em 1921, a não ser um fato que não se sabia na época: foi o período de maior extensão territorial do Império Britânico. Sua Majestade Britânica comandava quase um quarto do território mundial e da sua população – era o chamado “Império onde o sol nunca se punha” pois em algum lugar de seu território fazia sol.

Apenas três décadas depois a situação mudara. De fato naquele 1921 o Império já sofria de falta de recursos para enviar tanta tropa para lugares tão vastos. E a Segunda Guerra Mundial só acelerou o processo de apodrecimento, com um Reino Unido vencedor porém financeiramente quebrado. Pedaços do Império começaram a se desligar.

Os portugueses e depois os holandeses invadiram a antiga ilha da Taprobana ou Ceilão, e depois deles no final do século XVIII vieram os ingleses, que estabeleceram a colônia do Ceilão. E como colônia os cingaleses permaneceram por mais de um século, até que o antes todo-poderoso império começou se abrir pelas costuras.

No dia 4 de fevereiro de 1948 a antiga Colônia foi substituída por um país independente com status de Domínio dentro do Império. Ainda havia muita interferência britânica mas tinha direito a uma série de autodeterminações, entre elas o seu próprio Banco Central, que foi estabelecido a 28 de agosto de 1950.

Esse Banco Central cunhou as primeiras moedas do novo país soberano – entre essas os nossos ondulados 10 cents. Marca a preocupação pela continuidade – tanto os velhos dominadores como a nova elite do país pareciam querer deixar claro que nada mudara muito – daí a efígie do monarca britânico George VI, o qual parecia somatizar os problemas do Império. Homem de pouco mais de 50 anos mas atormentado por uma pletora de doenças, morreria no ano seguinte de problemas cardíacos. Sua má saúde não foi imitada por sua filha Elisabeth, que até hoje se mantém no trono. Em 1972 o Ceilão tornou-se república e mudou o nome para Sri Lanka, em outra transição.

E ficou a moedinha ondulada, um testemunho minúsculo da decadência de um Império.

sábado, 5 de dezembro de 2020

Relutante Final: os selos de 1956 da África Equatorial Francesa

 Paulo Avelino

silva@paulo.avelino.nom.br

 Selos afirmam um poder. Mais especificamente, afirmam o Poder do Estado. A hiper-comercialização da filatelia gerou os selos privados personalizados por encomenda e também os selos feitos na prática apenas para venda para colecionadores temáticos. Isso complicou o quadro. Mas na época que vemos neste artigo selos eram essencialmente um artefato estatal.

Durante o Século XIX os Estados europeus mais ricos destruíram a organização política da África e criaram outra, a dividir o continente em colônias. De tantas colônias que tinha, a França juntou algumas em unidades maiores. Em 1910 reuniu as colônias do Gabão, Congo (francês), a atual República Centro-Africana e o Chade em uma federação, a África Equatorial Francesa.


Anos depois a dita Federação, o Colonialismo em si e a própria República Francesa batiam pino. Em parte pela mudança das circunstâncias. As guerras autofágicas da Europa em 1914-18 e 1939-45 desnudaram as fragilidades do continente europeu. Não por coincidência logo depois da Segunda Guerra a França criou o Fundo de Investimento para o Desenvolvimento Econômico e Social, o FIDES (em 1946). Especializado em investimentos nas colônias, rebatizadas sob o nome de Territórios de Ultramar. Pouco adiantou. Os movimentos nacionalistas africanos se tornaram cada vez mais fortes.

Em 1956 a África Equatorial Francesa lançou uma série de selos, dos quais escolhemos dois. O selo de 10 francos e o de 200 francos deixam bem claro a quem pertence o Poder, através da sigla RF (République Française) e da silhueta do território francês no selo de menor valor.

O tema dos dois selos é o desenvolvimento. O selo de dez francos exalta a produção de algodão no Chade. É selo visualmente bem trabalhado, marcado por dois homens africanos atléticos nas laterais, o que orienta o olhar em diagonal descendente da esquerda para a direita a passar por plantações, a casa sede dessas plantações e uma flor de algodão. Ao longe, em solução pictórica típica da Renascença, uma ponte e um rio, no mínimo curiosos pois o Chade não possui grandes rios. Em contradiagonal, trabalhadores em fila depositam o algodão em uma pilha. E a sigla da organização que alegadamente tornara tudo possível, o FIDES.


O selo de 200 Francos figura um trabalhador em primeiro plano. Lembra certos selos de países socialistas na mesma época: no volante de uma máquina do progresso (o trator) o homem do presente mira resolutamente o Futuro. E em segundo plano (como que em um sonho do homem) aparece o Futuro – uma mistura de plantações muito próximas de fábricas entremeadas de postes de alta tensão e sobrevoadas por aviões.

A mensagem é clara – o colonialismo é necessário para ensinar aos povos da região como aproveitar suas riquezas para seu próprio bem.

Pouco adiantou. A África Equatorial Francesa se dissolveu em 1958 e depois cada um dos seus territórios se tornou país independente. Ficaram os selos, como sempre, os testemunhos de um poder e de uma época.

sábado, 13 de julho de 2019

Má Lembrança: o selo do Transkei de 1963



Paulo Avelino

Mostra um prédio contra um fundo verde, cercado por aura branca. De um lado a data (1963), do outro o valor (dois e meio centavos sul-africanos). Nos cantos de cima se posiciona o nome do Estado emissor, a República da África do Sul, em duas línguas, inglês e africâner.  Sóbrio, é dominado pelo nome Transkei, em geral desconhecido pelas gerações mais novas. E que encerra uma história de discriminação.

O Transkei estava destinado a ser um país nominalmente independente e naquele ano de 1963 se tornara região autônoma dentro do país-mãe, a África do Sul. O selo comemorava esse fato. Treze anos depois o Transkei adquiria sua independência.

Só que era tudo uma farsa. Que se encontrava em plano desde anos antes. Em 1948 o Partido Nacional voltou ao poder em eleições na África do Sul. Fanaticamente racista, aprofundou e criou um arsenal jurídico para a separação entre as raças e supremacia dos brancos do país. Estabeleceu leis proibindo casamentos entre pessoas de raças diferentes e obrigando a população a se registrar oficialmente de acordo com a raça. Parques, ônibus, hospitais, escolas e até bancos de praça passaram a ter avisos “só para brancos”. Era a política da segregação social radical, que passaria a ser conhecida pela palavra Apartheid.

O passo seguinte tentou separar as raças em regiões dentro do país. Para tanto dever-se-iam criar países, recortados do território da República. Esses países seriam destinados cada um a uma etnia. Transkei seria do povo xhosa, ao qual pertenceria Nelson Mandela. Esses países seriam conhecidos pelo nome de bantustões, hoje um qualificativo para independências falsas.

Pois os bantustões consistiam em formas de segregar o povo negro em certos territórios e tirar deles os direitos na África do Sul (pois lá eram oficialmente estrangeiros). Só que a pobre economia dos bantustões obrigava a população a trabalhar na África do Sul, enfrentando controles de fronteira e outras restrições. No caso do povo de Transkei, trabalhavam em minas no teoricamente país vizinho. Nenhum país do mundo jamais reconheceu a independência dos bantustões – só a África do Sul. Essas regiões autônomas, e depois denominados países, nunca tiveram autonomia real, não passando de marionetes dependentes da República Sul-Africana, apesar de uma ou outra rebeldia de algum dirigente.

A existência fictícia de Transkei e dos outros bantustões cessou em 1994, com o fim do regime de segregação racial, e não consta nenhum selo a marcar o seu fim, como esse pretendeu celebrar seu começo.

O selo retrata o parlamento de Transkei. Que se situava no edifício Bunga, construído décadas antes. Hoje tal prédio é o Museu Nacional Nelson Mandela. Uma construção que simbolizava a segregação entre raças hoje homenageia alguém cuja vida consistiu em construir a igualdade entre elas. Mais que boa ironia, pode ser um sinal de que a sociedade para mudar para melhor – desde que haja vontade para tanto.